Sofá

O sábado começou com um sol forte. Era raro os dias onde o sol saia por de trás das nuvens e por isso, a rua estava cheia. As crianças brincavam com os cães correndo de um lado para o outro enquanto os adultos sentados na calçada bebiam e conversavam. Algumas vezes um ou outro carro passava nas ruas perdido buscando informação de como chegar ao seu destino. 

Eu acordei indisposto, como sempre. Desde novo tinha problemas para dormir e agora adulto nada mudou. A casa grande estava vazia e silenciosa. Fui a cozinha. Preparei o meu café e me joguei no sofá. Aquele seria mais um sábado qualquer independente do exterior. Liguei a televisão e, naquele exato instante, a campainha toca. Me arrumo, apesar de ainda estar d pijamas, e vou atender. Um garoto de mais o menos 12 anos está perguntando sobre a bola que ele deixou cair na garagem. Pego-a e jogo de volta para eles. Volto para dentro, mas dessa vez desligo a campainha. 

Trabalhar sempre foi algo estressante para mim. O contato humano é algo que eu não superei e nem pretendo. Animais de estimação são uma responsabilidade que eu não quero. Então, prefiro viver sozinho nessa vida amargurada que escolhi e o silencio se tornou reconfortantes. 

Ele nunca sempre foi presente na minha vida, mas a partir do momento que decidi viver sozinho ela se tornou a minha principal companhia. Os pequenos sons das coisas fritando nas panelas, do micro-ondas avisando que a comida estava quente, da chuva batendo na janela, esses sons se tornaram pequenas visitas quem acompanhavam eu e o silêncio. 

Quando repaginei minha vida, muitos diziam que em algum ponto a solidão seria maior do que qualquer momento de paz, mas eles não pensavam que ela já me acompanhava a muito tempo. Aprendi a lidar com ela ainda muito jovem. A escola, a família, a religião, eles nunca me viram aos bons olhos, então me exclui para evitar mais dor. Aprendi a ser só trabalhando nos meus projetos escondido. Me recolhi no meu quarto e fiz dele a casca que eu necessitava. 

Agora a casa se tornava a casca. Um escudo impenetrável onde ninguém poderia entrar sem a minha permissão. Ali poderia ser quem eu realmente era e foi assim durante todo esse tempo. De roupão, sentado, quase deitando, no sofá, dei um gole no café já frio. Suspirei. E pude dormir pela primeira vez sossegado.

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