Onde as estrelas morrem

Naquele dia, cheguei tarde em casa. Depois da escola, fui à casa de um amigo e acabei passando do horário. A mãe dele me perdoo pelo incomodo, mas minha mãe não. Cheguei em casa e ela já me esperava. Não pareiam feliz em me ver. Ela não disse uma palavra, mas, pelo seu olhar, sabia que teria que esperar o jantar no meu quarto.

Angel, meu gato, me esperava na porta do meu quarto e, diferente da minha mãe, parecia feliz em me ver. Ele entrou junto comigo e se acomodou na sua cama que ficava embaixo da minha mesa. Eu joguei minha bolsa na cadeira e deitei. Nossa casa não era muito grande, mas para mim, minha mãe e Angel estava ótima. Morávamos em um morro na periferia de São Paulo. O lugar não era muito bom, mas dali podia ver as estrelas tranquilamente.

Desenvolvi uma curiosidade imensa sobre as estrelas quando vi uma estrela cadente ainda criança. Naquela época, meu pai “era vivo” e não podia me dar um telescópio. Quando ele se foi, minha mãe arrumou um emprego para pagar as contas de casa. Com pouco que restava, guardou e comprou um telescópio para mim. Ali do meu quarto eu consegui ver e me aprofundar nos meus estudos sobre os astros.

— João! Vem comer, menino! — gritou minha mãe.

Desci correndo e chegando lá o que me surpreendeu não foi o cheiro da comida, mas ver meu “pai” sentado à mesa.

— Como vai, João? — ele disse. Não respondi. — Bom... não se preocupe, não vou ficar. Vim apenas entregar o dinheiro para a sua mãe. Nos vemos depois.

Há três anos atrás, a empresa que ele trabalhava o transferiu para outro estado. Na época, não tínhamos condições de ir, então ele foi sozinho prometendo que seria voltaria quando tudo lá acabasse, mas não aconteceu. Ele, por si próprio, decidiu fiar por lá. Arranjou uma mulher e nos abandonou aqui. Quando voltou quis voltar a vida normal, mas minha mãe mandou para fora de casa e, no dia seguinte, pediu o divórcio. Minha mãe chorava todas as noites por conta desse homem. Nunca o perdoei. Minha mãe conseguiu minha guarda completa e ele nem ligou para isso. Ele vem me ver poucas vezes e nelas eu não quero ver ele.

— Querendo ou não, João, você não pode tratar ele assim — disse minha mãe. — Ele é seu pai.

— Já disse, mãe: ele não é meu pai. Ele abandonou a gente. Abandonou você.

— Pense por outro lado. Ele vem te ver pelo menos.

— A cada dois meses?! Pai super. presente ele. Estou sem fome. Vou subir.

Angel me esperava na minha cama brincado com um ratinho de pelúcia. Deitei do lado dele e fiquei um bom tempo brincando com ele.

— Quem dera alguém me entendesse — disse para Angel. — Meu pai só me quer quando não precisa de mim e minha mãe, apesar de tudo que ele fez para ela, quer me empurrar para ele — Angel me olhou para como se entendesse o que eu falei; aquilo me tirou um sorriso que se foi quando ele jogou seu brinquedo na rua. — Meu deus! Vou lá pegar. Fique aí.

Desci correndo e encontrei o brinquedo na calçada. Já se passava da meia noite e a rua estava silenciosa. Poucas casas estavam com as luzes acesas. Naquela hora, minha mãe já estava dormindo e não imaginava que eu estava sentado a rua. Aproveitei a calmaria da noite para observar o céu. Depois que recebi o telescópio, poucas vezes olhei para cima com o olho nu. Dali identifiquei algumas constelações e, com um pouco de dificuldade, alguns planetas.

Em certo momento, uma luz forte passa rasgando o céu em cima de mim. A luz branca me fascina na beleza e na proximidade que, por um instante, pensei que cairia em cima de mim. Pouco tempo depois, escutei um estrondo vindo de trás da minha casa. Não me importei e subi. No meu quarto, Angel estava agitado como se algo estivesse o incomodando.

— Ei, amigo. Está tudo bem? — ele chiava para mim. — Não precisa ficar assim. Peguei seu brinquedo — quando mostrei para ele, jogou-o longe e continuou a chiando. Ele pulava na porta e pulava em mim parecendo que queria me mostrar algo.

Abri a porta e ele foi em disparada. Foi para a parte de trás da casa e pulou o murro. Tentei acompanha-lo, mas não consegui. Fui na garagem, peguei a minha bicicleta e comecei a andar pelo bairro a procura do meu gato.

Gritava na rua procurado ele. Passei por inúmeras ruas, algumas que eu nem conhecia. Estranhei a falta de movimentação nas casas ou, até mesmo, ligarem as luzes para ver o que acontecia.

Comecei a escutar miados vindo de uma praça próxima. Nela estava Angel e outros gatos da vizinhança em volta de uma pedra brilhante. A luz dera era bem forte, mas parecia não incomoda-los. Me mantive um pouco afastado com medo de me atacarem. Angel chegou perto da rocha, miou como se falasse algo e tocou nela; naquele momento ela se abriu e uma luz muito forte se abriu. Tampei meus olhos e quando abri estava deitado na minha cama com Angel em cima das minhas pernas. Estava de dia e o ensolarado.

— Você está bem, João? — disse minha mãe entrando no quarto. — Ontem, você acabou desmaiando no seu quarto. Fiquei preocupada e achei melhor você ficar em casa hoje para descansa.

Levantei assustado. Angel lábia suas patas tranquilamente enquanto me olhava o que parecia confirmar tudo que aconteceu na noite anterior. Minha mãe parecia tão assustada quanto eu ao me ver daquele jeito.

— Tome filho — ela me entregou uma bandeja com pão café e uns biscoitos recheados —, coma e descanse. Mais tarde, conversamos.

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Os dias seguintes foram normais. Não escutei mais nenhum miado durante a noite e Angel não saia de casa como de costume. A única mudança foi que agora sempre acordava com ele em cima de mim se limpando. Achei, por um tempo, que ele estava tirando sarro de mim por achar que ele era de outro planeta, achei, também, que ele sabia o que ele era então me vigiava sempre que possível. De qualquer forma, não notei um comportamento anormal dele pelos dias que seguiram. Talvez minha mãe estava certa em dizer que tudo o que eu vi foi um sonho visto que se eu estava na praça como ela me viu desmaiado no meu quarto?

O que aconteceu não me assusta muito. Só gostaria de ter a confirmação que tudo que eu vi foi apenas um sonho.





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